Assoalho pélvico durante a gravidez: por que cuidá-lo antes do parto
Cuidar do assoalho pélvico durante a gravidez reduz o risco de incontinência e facilita o parto. Guia prático por trimestres com recomendações de enfermeiras obstétricas e fisioterapeutas.

Durante a gravidez, o teu corpo muda a uma velocidade que por vezes custa acompanhar. E há uma zona que trabalha em silêncio, sem que a vejas, suportando cada vez mais peso: o assoalho pélvico. Prepará-lo antes do parto não é uma moda nem algo “que fazem as famosas”. É uma recomendação clara de enfermeiras obstétricas, fisioterapeutas especializados e da própria SEGO.
Aqui explicamos o que é, por que importa cuidá-lo desde o primeiro trimestre e o que podes fazer em cada etapa. Sem culpa, sem agonia e com informação comprovada.
O que é o assoalho pélvico e que função cumpre
O assoalho pélvico é um conjunto de músculos, ligamentos e tecido conjuntivo que fecha a pelve por baixo. Imagina-o como uma rede que sustenta a bexiga, o útero e o reto. Também intervém na continência urinária e fecal, nas relações sexuais e, claro, no parto.
É uma musculatura profunda, por isso não a vês nem a controlas com a mesma facilidade que um bício. Mas treina-se. E responde bem quando lhe prestas atenção.
Por que a gravidez o põe à prova
O útero passa de pesar uns 60 gramas a superar o quilo no final da gravidez. Soma-lhe o bebé, a placenta e o líquido amniótico. Todo esse peso recai, literalmente, sobre o assoalho pélvico durante meses.
A isso acrescenta-se o efeito da relaxina e outras hormonas, que aumentam a laxidez dos tecidos para permitir a passagem do bebé. O resultado: uma zona mais vulnerável a distensão, fraqueza e microlesões mesmo antes do parto.
Consequências de não o cuidar: incontinência, prolapsos e mais
A consequência mais frequente são as perdas de urina ao tossir, espirrar ou rir. Segundo dados publicados em revistas de ginecologia, entre 30 e 50% das grávidas sofrem algum grau de incontinência urinária no terceiro trimestre ou no pós-parto.
Outras possíveis consequências:
- Prolapsos da bexiga, do útero ou do reto (descida destes órgãos).
- Dor perineal persistente após o parto.
- Desconforto nas relações sexuais.
- Sensação de peso na zona genital.
Não são inevitáveis. E muitas previnem-se com trabalho precoce.
Alterações normais do assoalho pélvico por trimestre
No primeiro trimestre, as alterações hormonais já começam a amolecer os tecidos, embora o peso ainda seja pequeno. É o melhor momento para tomar consciência da zona.
No segundo trimestre, o útero sobe acima do púbis e o centro de gravidade muda. Podes notar um pouco mais de pressão no final do dia.
No terceiro trimestre, a carga é máxima. Surgem perdas leves, sensação de peso e, por vezes, vontade frequente de urinar. É esperado, não significa que algo esteja mal.
Sinais de alarme: quando consultar a enfermeira obstétrica ou o ginecologista
Consulta sem esperar se notares:
- Perdas de urina abundantes ou constantes.
- Sensação de protuberância na vagina.
- Dor perineal intensa ou pungente.
- Perdas de fezes ou gases sem controlo.
- Sangramento não relacionado com consultas ginecológicas.
A tua enfermeira obstétrica pode encaminhar-te para uma fisioterapeuta especializada em assoalho pélvico, se considerar necessário.
Exercícios de Kegel na gravidez: como fazê-los bem
Os exercícios de Kegel consistem em contrair e relaxar a musculatura do assoalho pélvico de forma consciente. A chave está em identificar bem a zona: é o músculo que usarias para cortar o xixi a meio da micção (embora este truque sirva apenas para localizá-lo, não para praticá-lo ao urinar).
Uma sequência habitual recomendada pelas enfermeiras obstétricas:
- Contrações lentas: aperta durante 5 segundos, relaxa 10. Repete 10 vezes.
- Contrações rápidas: aperta e solta rapidamente, 10 repetições.
- 2 ou 3 séries por dia.
Podes fazê-los sentada, deitada ou em pé. O importante é não contrair glúteos, abdómen nem coxas ao mesmo tempo. E respirar normalmente.
Fisioterapia do assoalho pélvico durante a gravidez
Se tiveres acesso, uma avaliação com uma fisioterapeuta especializada em obstetrícia por volta da semana 20-24 é muito útil. Pode avaliar o tónus muscular, ensinar-te a ativar a zona corretamente e trabalhar a elasticidade do períneo para o parto.
No terceiro trimestre costuma introduzir-se a massagem perineal, que a evidência associa a menor risco de lacerações e episiotomia. A tua enfermeira obstétrica pode explicar-te como a fazer em casa a partir da semana 34.
Outras pautas práticas por trimestre
Primeiro trimestre
- Toma consciência da zona com exercícios suaves de Kegel.
- Cuida da postura: evita arquear a zona lombar.
- Hidrata-te bem e previne a prisão de ventre (fazer força castiga o assoalho pélvico).
Segundo trimestre
- Introduz atividade física adaptada: natação, yoga pré-natal, caminhar.
- Evita exercícios de impacto (saltos, corrida intensa) se notares pressão.
- Aprende a expirar ao fazer esforços (levantar peso, levantar-te).
Terceiro trimestre
- Começa a massagem perineal a partir da semana 34, se a tua enfermeira obstétrica o indicar.
- Pratica posições de parto que descarreguem a zona (de cócoras apoiada, em quatro apoios).
- Descansa deitada de lado para aliviar a pressão. Se tiveres dúvidas sobre isto, pode interessar-te este guia sobre posições para dormir na gravidez conforme o trimestre.
Mitos frequentes que convém desmontar
“Se vou ter cesariana, não preciso de trabalhar o assoalho pélvico.” Falso. A gravidez por si só enfraquece-o, com ou sem parto vaginal.
“Os Kegel fazem-se enquanto urinas.” Não. Só para o identificar uma vez. Fazê-los assim pode favorecer infeções e disfunções.
“Se não tenho perdas, não há problema.” A ausência de sintomas não equivale a um assoalho pélvico saudável. Pode estar hipertónico (demasiado tenso) e também causar problemas.
Perguntas frequentes
Quando começo a fazer exercícios do assoalho pélvico? Podes começar desde o primeiro trimestre, desde que a gravidez decorra sem complicações. Consulta a tua enfermeira obstétrica se tiveres ameaça de parto prematuro ou placenta prévia.
Os Kegel dificultam o parto? Não. Um assoalho pélvico treinado não é um assoalho rígido. Aprender a contraí-lo implica também aprender a relaxá-lo, algo essencial na expulsão.
A fisioterapia do assoalho pélvico está coberta pelo Serviço Nacional de Saúde? Depende da região. Em alguns sítios oferece-se no pós-parto; o acompanhamento durante a gravidez costuma ser privado. Pergunta no teu centro de saúde.
Posso fazer desporto com normalidade? Sim, adaptado. Natação, caminhada, yoga pré-natal e pilates hipopressivo (com profissional formado) são boas opções. Evita impactos fortes se notares pressão ou perdas.
E depois do parto? A recomendação geral é esperar pela quarentena e fazer uma avaliação com fisioterapeuta especializada antes de retomar os Kegel ou exercício de impacto. Cada pós-parto é diferente.



